quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Análise: American´s McGee Alice.

















Seguir o coelho branco nem sempre é uma boa ideia!




Baseado no livro infantil de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas ganhou vida pelos estúdios da Disney em 1951, considerado até hoje um dos melhores filmes animados do estúdio. As aventuras da pequena Alice já ganharam muitas adaptações em filmes, desenhos e vídeo games, mas nenhuma chegou perto de ser tão sombria e grotesca quanto American´s McGee Alice.

Este jogo de ação e aventura explora um lado mais adulto e sombrio do conto de Carroll, adicionando temas fortes como perturbação mental, violência e suicídio. O jogo causou polêmica devida a visão tão perturbadora criada do País das Maravilhas. Mas a verdade é que se não fosse por esse charme peculiar, American´s McGee Alice não seria mais que um mero título de ação e plataforma, com trechos de puzzle e exploração forçados. Apesar de ser divertido, American´s McGee Alice é chama atenção mais pelo seu conceito atípico do que pelo jogo em si.  

Enredo.

Os eventos do game acontecem cinco anos após a história original. Nesse tempo, a jovem Alice cresceu e viveu tragédias horríveis em sua vida. Uma noite, ela acorda com um incêndio em sua casa, ao entrar no quarto de seus pais vê que eles estão morrendo queimados, deixando-a atormentada. Atualmente, Alice está internada em um sanatório, por ter tentado suicídio ao ficar catatônica diante da cena de seus pais em chamas. No mundo das maravilhas as coisas também não estão como antes. A Rainha de Copas está mais malvada que nunca e começou a escravizar os habitantes do lugar, espalhando morte, destruição e terror em um mundo de paz e alegria.


Para salvar o País das Maravilhas, o coelho chama Alice de volta, que fica horrorizada em ver o lugar em um estado tão deplorável. Ao seu lado Alice só terá dois aliados: O coelho e o velho gato risonho, que agora só traz a sombra de seu sorriso. Outros companheiros se tornaram tão ruins quanto à rainha, como Chapeleiro Maluco, que agora é um homicida sem escrúpulos. Alice deverá enfrentar essa ameaça, enquanto tenta se recuperar de sua própria ruína pessoal, explorando um mundo que, de maravilhoso, passou a ser repugnante e sombrio.

Maravilhas macabras.

Já nos primeiros momentos o jogo não esconde sua excentricidade. Basicamente, a aventura de Alice será linear, explorando a fundo o conceito da obra original, mas de uma maneira mais assustadora.  As fases do game acontecem em lugares completamente gritantes. Serão castelos, tocas de coelho, vilas e salões encantados. No entanto, esqueça os campos verdes e o céu azul ensolarado. O País das Maravilhas está repleto de angustia, dor e desolação, e acredite, este clima consegue tocar o jogador de forma esplendida, graças ao trabalho artístico e técnico da produção.


Todo o conceito do game parece querer fugir da mesmice, e não é apenas nos cenários. O arsenal da garota também conta com armas nada convencionais. A principal será a Vorpal Blade, uma faca que mais parece uma espada. As demais armas incluem cartas de baralho que parecem navalhas, cajados mágicos, bastões de gelo e pedrinhas teleguiadas. Alice ainda conta com um fator fúria, que a transforma, temporariamente, num demônio vermelho, que consegue destruir qualquer criatura em um ataque. Os combates seguem padrões simples de mirar e clicar, o que pode chatear jogadores que procurem por algo a mais. Ainda assim, há uma boa satisfação em decepar as cabeças dos guardas da rainha de copas.

O game segue a rotina de combates e exploração. Os cenários possuem caminhos únicos, salvo alguns momentos de bifurcações. No geral, a exploração não apresenta muita dificuldade. Por vezes haverá algum puzzle ou alguma porta para abrir, mas nada que exija muita do jogador. No final das contas, destrinchar cada canto do cenário serve apenas para o jogador admirar as bizarras belezas presentes no trabalho de arte do game.

Parte Técnica.

Talvez a parte técnica em si não seja das mais avançadas, afinal, em sua época, havia jogos com gráficos mais bem trabalhados que Alice. O que realmente chama atenção aqui é o trabalho artístico excepcional. E acredite, depois de American´s McGee Alice, o único jogo que surgiu com um trabalho de arte tão formidável e perturbador foi Dante´s Inferno. Os cenários do game recriam parte do ambiente do desenho animado, mas com tons mais sombrios e grotescos. A Vila dos Condenados, na primeira fase, mostra um lugar com um céu negro, pessoas sofrendo e vários pontos do ambiente destruídos. Não há um único cenário que passe a impressão de ser genérico. Notamos o perfeito trabalho da equipe, desde um suntuoso e macabro castelo com almas torturadas há uma simples porta de forma distorcida, que se abre para o lado contrário. A cada novo cenário, o jogador se depara com um lugar perturbador e insano.


Não há uma grande variedade de inimigos, com a maioria serão cartas de baralho com lanças; os guardas da Rainha de Copas. Mais uma vez a modificação macabra na obra chama atenção. Alice, por exemplo, tem rosto de expressão cava, com um olhar sem vida e frio. O gato risonho agora é uma criatura esquelética, de um riso bondoso, passa a sorrir de forma forçada e maníaca. O Chapeleiro Maluco até lembra um pouco do clássico Coringa, com um visual medonho e jeito psicopata. Em fim, uma releitura perfeita, que vai encher os olhos e cativar o jogador. O game ainda conta com excelentes efeitos de tela nos combates. Há luzes dinâmicas e sombras por todo lugar. Em combates mais furiosos, a tela se enche de luzes e cores, que ajudam a complementar o clima que o título possui.

A trilha sonora sem duvida merece aplausos. As canções foram compostas e arranjadas por Chris Vrenna, músico que tocou com Marylin Manso, Nine Inch Nails e Billy Corgan. Além das composições serem bem pesadas, Chris optou por arranjos nada convencionais, usando brinquedos infantis, percussões, caixas de canções de ninar e vozes femininas modificadas. O resultado é uma trilha tão sombria e grotesca quanto o restante do game. As músicas, em sua maioria, lembram cantigas de ninar, só que com notas mais macabras e assustadoras. Os efeitos mantiveram o nível da produção em alta, seja nos momentos de combate, exploração e dublagens, que ajudam a dar o tom ideal para a trama.

Aprovado J

Boa imersão.

O grande trunfo de American´s McGee Alice é a sua imersão. Tudo isso está ligado com o trabalho de arte excepcional da equipe de produção do game, que aproveitou com maestria o conceito de bizarro que o título propôs. O game traz um País das Maravilhas deformado, com pessoas desesperadas, cenários surreais e personagens sombrios. O Gato Risonho funciona como um guia no decorrer das fases, mas suas dicas são tão claras quanto os conselhos do Mestre dos Magos. A própria protagonista apresenta personalidade, e bem pesada, por sinal. Os temas do enredo giram em torno de suicídio, doenças mentais e depressão. Tudo isso está amarrado através de diálogos repletos de metáforas, violência e um mundo distorcido.


As fases possuem modelos naturais e diversificados. Há diversos cenários com céus negros ou distorcidos. Outros apresentam um infinito negro ao redor, com portais que ficam girando e sugando tudo a sua volta. O palácio da Rainha de Copas é composto por paredes e chãos que lembram tabuleiros de xadrez, com o mesmo céu distorcido. Toda essa cenografia atípica, combinada com os temas pesados do game, cria um produto singular, e o próprio enredo do game se encarrega de levar o jogador adiante nas 10 horas de campanha que o game possui.

Reprovado L

Mecânica pouco empolgante.

Se não fosse pelo conceito marcante e macabro, American´s McGee Alice seria apenas mais um game de ação em terceira pessoa, sem muitos atrativos. O seu maior problema está na lineariedade excessiva do jogo, sem tentar variar muito na mecânica de jogo. Em resumo, o jogador passará metade do tempo lutando contra o exército da rainha e pulando plataformas. Há alguns quebra cabeças, é verdade, mas são pouco inspirados e podem ser resolvidos sem o mínimo esforço do jogador. A exploração é apenas um pretexto pra ver o trabalho artístico, e somente isso.


Os combates também seguem a simplicidade maçante da mecânica. Tudo não passe de um constante amassar do botão esquerdo do Mouse, sendo a solução para resolver qualquer combate. Por vezes, há muitos inimigos da tela, o que poderia criar um desafio maior no jogo... Poderia! Mas, as armas mais poderosas parecem ficar disponíveis cedo demais, e como há itens de recuperação de maná em abundancia no game, é bem mais simples e rápido usar artilharia pesada para vencer os desafios.  Se há algum consolo em tudo isso, é que mais uma vez, a combinação teclado + mouse se mostra extremamente eficaz, não criando nenhum problema no decorrer da aventura.

Conclusão.

Por seu conceito único e um trabalho artístico impecável, American´s McGee Alice é um game memorável. Mas, se não fosse pelo cuidado técnico, seria apenas mais um jogo de ação e terceira pessoa que não trouxe nada de novo ao gênero. Ainda assim, foi um dos títulos mais vendidos da história da EA Games, com 1 milhão de cópias em apenas três meses, um feito que motivou a continuação, Alice: Madness Returns, na atual geração de consoles. Mesmo com uma mecânica de jogo pouco inspirada, American´s McGee Alice é diversão garantida, já que a imersão mantém o interesse do jogador até o fim.

 



Notal Final





Análise escrita por: Lipe Vasconcelos.









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