terça-feira, 17 de setembro de 2013

Análise: 24 - The Game.





As 24 horas de Jack Bauer chegam ao Playstation 2.





De todos os exclusivos lançados para o Playstation 2, 24: The Game foi um dos mais esperados, devido à promessa de ser o jogo de ação definitivo do console. Toda essa expectativa não era pra menos! Afinal, a Cambridge Studios tinha em mãos um excelente e vasto material a ser explorado. Em 2006, “24 Horas” estava entre os cinco seriados mais assistidos no mundo. Mas 24: The Game não atendeu a todas as expectativas do publico e da critica. 

Por um lado, o jogo é extremamente fiel ao o universo da atração, com uma produção riquíssima, que contou com toda a equipe responsável pelo seriado; inclusive os atores, que emprestaram seu talento para construir cada personagem no jogo. No entanto, mesmo com essa fidelidade toda, faltou mais gás para ser um título de ação digno de altas honras. Não, este não é um jogo ruim, e nem se trata de um título caça-níquel! O grande problema é que, para um game com tanto potencial, 24 acaba caindo naquela maldição de games com idéias mal desenvolvidas.

Enredo.

24: The Game teve seu enredo escrito e dirigido pela mesma equipe responsável pela série, o que significa que os principais elementos da trama original foram devidamente explorados no jogo, com ataques terroristas, tramas políticas e traições. O jogo acontece em um dia localizado entre a segunda e terceira temporada. Numa manhã qualquer, a UCT de Los Angeles recebe uma chamada anônima, comunicando que um navio com armas químicas está atracado no porto da cidade.


Jack Bauer e sua equipe são enviados para o porto a fim de averiguar a situação. Lá encontram um container vazio e corpos de funcionários espalhados no local. Paralelo a isso, o agente Chase Edmunds, da UCT de Washington, descobre um plano para matar o Vice-Presidente durante sua visita a Los Angeles. Chase, então, viaja para Los Angeles escondido, a fim de descobrir o que está acontecendo. Esses atípicos acontecimentos montam uma trama de vingança, interesses políticos e pessoais, que irão envolver a todos os principais agentes da UCT, principalmente o herói, Jack Bauer.

Jogando a série.

A essas alturas você deve saber que 24 Horas se tornou uma das séries de maior sucesso da TV americana, e na brasileira também. A trama gira em torno do agente federal Jack Bauer (interpretado pelo ator Kiefer Sutherland) que trabalha para o UCT, uma agência anti terrorismo que prevê e detém ataques terroristas na cidade de Los Angeles. “24 Horas” ficou famosa por diversos fatores; o principal foi o formato da série, cuja trama se desenrola em apenas 24 horas, onde cada hora do dia de Jack Bauer acontece em um episódio. A série conta com eventos em tempo real que são mostrados em telas dividas.


 





O núcleo principal da atração é a conspiração política, onde ataques terroristas são organizados e praticados baseados em ideologias sociais, envolvendo traições constantes. Outro fator forte na série foi à união de ação com dramas pessoais vividos por cada personagem, que sempre ganhava alguma história paralela ao longo da temporada. Jack Bauer se tornou o herói ícone de sua geração, devido a sua crueldade para lidar com os inimigos, torturando e matando em nome do país. Mas ao mesmo tempo, o agente vivia conflitos pessoais, como as motivações que o levaram a ser o agente violento que é, e tudo que perdeu na vida em nome do seu país. Jack Bauer é considerado um dos personagens mais durões e profundos já criados até hoje.

Seguindo o roteiro da série, a Cambridge fez um jogo totalmente fiel à cultura de 24 Horas. Sua apresentação é impecável, graças ao envolvimento dos produtores da série no game. As cenas não interativas exploram com maestria cada detalhe da série, desde o jogo de câmeras nas cenas ao corte de telas para mostrar os diferentes eventos que o jogo conta. Em resumo, tudo está lá: A narração de Kiefer Sutherland ao inicio de cada hora, o som do relógio característico da série, os personagens marcantes e, é claro, a trama cheia de reviravoltas políticas e vilões inescrupulosos.  A fidelidade do jogo é incrível e consegue agradar aos fãs.



O game não faz questão alguma de apresentar os personagens da série, confiando que você já os conhece da TV. Mas caso não os conheça, não faz mal algum. Jogadores que nunca tiveram contato com a atração não se sentirão perdidos. É claro que há necessidade de conhecer a fundo o universo de 24 Horas para entender quem é Jack Bauer ou Tony Almeida, mas isso não o impede de compreender o que acontece no game. Já os veteranos sentirão que o jogo completa alguns espaços em brancos na terceira temporada, como a chegada de Kim Bauer a UCT, como Chase se tornou o parceiro de Jack e os danos a saúde de David Palmer após o ataque sofrido na cena final da segunda temporada. Não se trata de fatos que realmente fazem a diferença para a compreensão das temporadas da TV, mas faz um sutil apelo nos admiradores da série, que encontrarão um excelente motivo para jogar o game até o fim, mesmo que no final, o enredo não tenha uma conclusão memorável.

Infelizmente, a qualidade em representar a série fielmente se esbarra com o jogo em si. 24: The Game é um jogo de ação em terceira pessoa com elementos de exploração, stealth, puzzles, perseguições e interrogatórios. Todas as modalidades cabem no contexto, mas nem toda se aprofundam como deveriam. Ao longo do jogo teremos a chance de comandar Jack Bauer, Tony Almeida e Chase Edmunds. Eventualmente haverá uma fase onde o jogador terá o controle de Michelle Dessler e Kim Bauer. Mas no geral, nenhum deles apresenta diversificação na jogabilidade, somente Kim, que tem problemas para mirar sua arma. Essa variação de personagens serve apenas para citar o fato de que o jogo não gira só em torno de Jack Bauer, fator que não será dos mais empolgantes.



Nas missões de tiro (as principais do game) é possível notar uma variação de objetivos a cumprir, como buscar uma testemunha, encontrar uma arma ou cartão chave. Mas tudo sempre transcorre da mesma maneira: Empunhando uma arma e derrubando o maior número de inimigos possíveis. A mecânica de combate é divertida, pois permite diversos movimentos que ajudam a bolar estratégias na hora do fogo cruzado. No entanto, os combates são muito fáceis e dificilmente pedem algo mais que atirar até o inimigo cair e se proteger atrás de uma parede ou uma caixa. As possibilidades na jogabilidade divertem e criam momentos diferentes para cada missão. Mas no final, 24: The Game deixa a impressão de que é um jogo de grande potencial que não foi devidamente explorado, ficando tudo no patamar das idéias boas de fraca execução.




  
Parte técnica.

A parte técnica consegue se sair bem nas cenas não interativas; não por terem uma qualidade acima do normal, mas por ter usado com sabedoria os conceitos da série. Cada um dos atores emprestou seu rosto e movimentos para todo o game, fazendo o jogador se sentindo no controle da atração. Não se trata exatamente de gráficos que beiram a verossimilhança, pois dependendo do ângulo, alguns rostos perdem um pouco a semelhança com os atores. Mas o cuidado para detalhar cada expressão de cada personagem é louvável e garante mais aproximação com a série. O movimento de câmeras e cortes de telas está excelente e irrepreensível.






Já os gráficos in game não impressionam da mesma maneira.  Os personagens estão bem modelados e bem animados, exceto Tony, que corre de um jeito estranho, como se seus braços estivessem colados no seu corpo. Os inimigos são variados e apresentam o mesmo nível de detalhes dos demais personagens. Os cenários são bem construídos, mas algumas texturas ficaram mal aplicadas e até borradas, principalmente quando há muita coisa ocorrendo na tela. Você se aventura em ambientes diversos de Los Angeles, destaque para a ótima oportunidade de jogarmos dentro das instalações da UCT. Os cenários externos são pobres e sem vida, principalmente nos momentos de perseguição. O Playstation 2 parece chegar ao seu limite quando muitos elementos se movem na tela, criando graves quedas de quadros em explosões, ou em fases onde muitos inimigos atiram de uma vez.

Levando em conta que os gráficos em si são ultrapassados para a época em que o jogo foi lançado, é realmente difícil de entender por que esses efeitos causam um slow down tão preocupando na tela. Acredite! Essas quedas vão influenciar demais na jogabilidade, como na missão onde Chase deve proteger Madson durante um tiroteio, por exemplo.

A parte sonora com certeza é um grande destaque. Os sons do jogo são cristalinos e bem reproduzidos, desde o uso das armas ao som dos passos. Há bastante impacto nos efeitos de explosão e efeitos de ecos em ambientes mais fechados. A trilha sonora foi escrita e trabalhada por Sean Callery, que também faz as músicas da série. Apesar das músicas serem ótima, são poucas, e repetem demais. Em alguns momentos sua execução também é esquisita, pois as músicas parecem se encerrar antes do que deveriam, emendando outra na mesma hora. Cada ator dublou o seu próprio personagem, o que significa que todas ficaram excelentes e fieis. Todas as falas foram bem interpretadas, mostrando que bons atores tem sim condição de dublar perfeitamente.

Aprovado.

Ação combinada com exploração e Puzzle.

Das várias mecânicas que o jogo cobre, três delas são excelentes: A primeira e principal é a ação. As armas não chegam a ser variadas, mas são todas úteis e contam com excelente poder de fogo. É preciso selecionar bem que arma usar para cada situação. Mas se o jogador preferir, o próprio jogo se encarrega de escolher automaticamente a melhor arma. Há movimentos legais durante os tiroteios, como se esconder atrás de paredes e caixas para se proteger de tiros, ou observar o movimento inimigo. O sistema de mira é bom e possui boa calibragem, os novatos poderão fazer uso da mira automática, bastando cravá-la no peito do adversário e mandar bala. O mais divertido nos tiroteios é que você também pode prender os vilões! Ao entrar em um lugar e se identificar, alguns deles largam suas armas e se entregam, outros abrem fogo furiosamente contra o agente da UCT. Há missões em que há muitos civis por perto, por isso, é preciso tomar cuidado para que uma bala perdida não faça vitimas inocentes. Todas as suas ações são avaliadas ao fim de cada missão. Matar inocentes, inimigos rendidos e causar danos ao patrimônio público diminui seus pontos, enquanto prender inimigos rendidos ou matá-los com um único tiro contribui para notas mais altas, que desbloqueiam conteúdo extra no menu principal.


Além de tiroteios, há momentos de uma singela exploração. Os cenários não são do tipo que apresentam segredos, mas é sempre bom achar munição ou kits de saúde extras pelo caminho. Também há puzzles para resolver. Estes puzzles se apresentam como mini-games com boa criatividade. Há portas com senhas embaralhadas e o jogador precisa as colocar as letras em ordem, dados para serem recuperados em jogos que testam o reflexo, bombas para desarmar... Enfim, divertidos mini-games que quebram a rotina de sair atirando em bandidos e acrescentam diversão à experiência de jogo. Outro momento divertido (infelizmente único) é quando Jack é coagido por um terrorista e deve agir contra a lei. Também há raros (porem divertidos) momentos onde Jack usa sua habilidade de franco atirador.

Descobrindo informações.



De todas as partes que o jogo cobre a mais original e criativa são as de interrogatório. Nessas missões Jack terá de extrair informações de testemunhas e suspeitos. O jogador controla o interrogatório mudando o tom de voz de Jack entre calmo, neutro e agressivo, mudando assim a pressão psicológica do suspeito. O segredo é manter o nível de tensão no campo de cooperação, onde o interrogado começará a falar. Há um tempo para descobrir todas as informações e cada interrogatório apresenta suas dificuldades. Naturalmente, esses momentos ficaram bem mais leves do que na série. Mas bem que seria divertido ver Jack Bauer torturar suas vitimas, com certeza aumentaria o charme e a fidelidade desses divertidos momentos.

Reprovado.

IA fraca.



Sim, os combates de 24 são bastante divertidos devido às várias possibilidades de estratégias, mas à fraca inteligência artificial dos inimigos põem tudo a perder. Enfrentar inimigos só se torna realmente perigoso quando há muitos deles na tela, forçando o jogador a ter cautela na hora de avançar. No entanto a maioria deles parece apenas se esconder e esperar pelo abate. Resumindo, o jogo não faz jus às possibilidades dadas ao jogador, uma vez que basta se esconder atrás de obstáculos e atirar furiosamente, fazendo com que os confrontos percam o seu brilho rapidamente.

Mecânicas pouco aprofundadas.

24: The Game apresenta muita variação. De certa forma isso funciona bem, pois o jogo não se torna um interminável tiroteio do inicio ao fim. O grande problema é que faltou mais criatividade para explorar isso. Os quebra-cabeças são recorrentes e até conseguem manter um nível de interesse. Já os pouquíssimos momentos de Stealth são medíocres, simplesmente por que são fáceis demais, chegando a ter situações cômicas onde o agente da UCT vai passar praticamente na frente de uma pessoa e ela não o verá! As mecânicas que melhor funcionam (interrogatório e fases onde o personagem é coagido) são rápidas e mal exploradas no decorrer do game. No final tudo parece se resumir em sair atirando para todos os lados. Também não faria mal ter um mundo parcialmente aberto à exploração.

Fases de direção.



No entanto nenhum momento do game consegue ser mais frustrante que os de direção. Aqui a Cambridge pega emprestado elementos de GTA e Need For Speed – Most Wanted, mas não com o mesmo brilho. Jack pode “pegar emprestado” qualquer carro na rua. Os caminhos sugerem exploração, mas sempre haverá tempo para chegar ao seu destino. A paciência do jogador é levada ao extremo na hora de dirigir. Estas partes parecem depender exclusivamente de sorte, pois os oponentes encurralam o herói de uma maneira tão apelativa que chega a ser ridículo, e a dirigibilidade do carro é péssima, sendo muito lento e muito exagerado nas curvas. Para piorar, esse tipo de fase é tão frequente quanto às missões de tiro e garantem os pontos mais chatos do jogo todo.

Conclusão.  

24: The Game veio com a promessa de ser o melhor jogo de ação do Playstation 2. De fato, a Cambridge tinha a faca e o queijo na mão. O enredo é ótimo e o jogo em si é bastante fiel a obra original. Mas alguns momentos de falta de inspiração e as falhas imperdoáveis nos gráficos in game tiram praticamente todo o pouco brilho que o jogo ainda consegue reunir. 



Não se trata de um título descartável, mas também não é nada memorável. No final das contas parece ser um produto que veio mais para agradar os fãs, e mesmo eles vão encontrar dificuldade de se divertir em algumas etapas da aventura. Apesar de ter muito a oferecer 24: The Game se prende ao básico e acaba sendo apenas mais um jogo genérico no mercado.



Nota Final.





Análise escrita por: Lipe Vasconcelos.






Um comentário:

  1. Gostei da análise, já tinha jogado esse jogo antes e achei bem legal. Se der pra você fazer Lipe gostaria de pedir a análise de um jogo bem desconhecido do PS2 chamado Hungry Ghosts.

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