quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Análise: Haunting Ground




ACTA EST FABULA.





Em 1996 Resident Evil ditou as principais regras do horror/survival. Posteriormente, estas regras foram melhoradas pelo seu maior concorrente, Silent Hill, que trouxe a vertente do horror psicológico para o mercado. Em 2005 a Capcom elevou o nível de terror psicológico com Haunting Ground (Demento no Japão), com uma ideia bastante original e digna de atenção. Acredite, se alguém lhe falar que o medo é levado aos extremos aqui, não é exagero.

A grande sacada de Haunting Ground é colocar o jogador no controle de uma protagonista que é incapaz de se defender dos perigos que a cerca. Ainda há elementos de Ico aqui, ou seja, você ajuda e é ajudado por outra criatura e acaba criando laços com a mesma. O que mais impressiona em Haunting Ground é o tipo de tensão e pânico que ele é capaz de criar. Este é um jogo que eu não aconselho para os mais sensíveis ao susto ou ao grotesco.

Enredo.

Fiona Belli (uma loirinha gata pra cacete) acorda em uma cela de um local desconhecido. Logo ela percebe que está nua (fap, fap, fap) e sendo vigiada por um cara enorme e com jeito de bobão. Percebendo que a cela está aberta, Fiona foge e descobre que estava no calabouço de um castelo. Enquanto foge, Fiona se assusta com algo que parece ser um cachorro.



Durante sua fuga ela tem flashs de um acidente de carro que sofreu e de alguém com um chapéu olhando de algum ponto da cena. Sem saber onde está e por que, a moça começa a procurar um modo de sair dali. Durante essa busca ela se encontra com a enigmática empregada, Daniella, e novamente, com aquele que a vigiava, um jardineiro gigante colecionador de bonecas, com ar sinistro e perigoso, que a confunde com uma de suas bonecas e passa a persegui-la. Enquanto foge, Fiona é ajudada pelo cachorro de nome Hewie, que logo se torna seu companheiro. Juntos, Fiona e Hewie tentarão encontrar uma maneira de sair deste lugar e descobrir o que está acontecendo.

O melhor amigo do homem... Ou moça!

Haunting Ground possui uma ambientação bem interessante. O cenário é um castelo com ar medieval, com diversos cômodos e um clima tétrico. Para jogadores veteranos de horror/survival a mecânica será bem familiar. Fiona deve investigar o castelo, buscando informações sobre o que está acontecendo e encontrando itens que auxiliarão a progredir no game. No entanto, as semelhanças com outros jogos do gênero terminam aqui.



Não demora muito para que o jogador encontre Hewie, e menos ainda para perceber que o cão será a sua principal chance de sobreviver. Hewie passa a seguir Fiona, recebendo ordens diretas dela. Serão cinco tipos de comandos disponíveis. O primeiro é o de chamar Hewie para perto, de modo que ele se torne cada vez mais companheiro da moça. O segundo comando é de busca e ataque, assim, Hewie pode encontrar ou pegar itens que estão fora do alcance da garota, como em cercas ou colunas mais altas. O cachorro também pode desbloquear portas e morder os perseguidores de Fiona, facilitando sua fuga. O terceiro comando será o de carinho e recompensa. O quarto comando consiste em repreender o cão quando ele fizer algo de errado, e o quinto para deixá-lo parado, útil principalmente durante os quebra-cabeças.

Não demora muito para que o jogador se afeiçoe a Hewie. A interação da moça com o cão é primordial. Hewie precisa de carinho e recompensa constantemente, principalmente depois de cumprir uma tarefa com eficiência. Também é necessário alimentá-lo com itens espalhados pelo castelo e até mesmo repreende-lo quando demorar a obedecer. Caso Hewie seja bem cuidado, atenderá prontamente as ordens de sua dona. Nesse caso, quando Fiona for perseguida, o animal a protegerá mesmo que o jogador não dê o comando. No entanto, se não receber carinho, se não for alimentado, deixado sempre sozinho e até mesmo levar chutes, o cachorro deixará o jogador na mão, o que é extremamente ruim. Tratar Hewie bem ou mal também influência para fazer um dos quatro finais do game.

A melhor defesa é a evasiva.

A segunda mecânica singular de Haunting Ground é a incapacidade de Fiona em se defender. Os inimigos no castelo serão as pessoas que o habitam, como o caseiro Debilitas, a empregada Daniella e o misterioso Ricardo. O que todos eles têm em comum? O desejo sádico de matar a pobre Fiona. Como a moça não tem treinamento militar e nem é corajosa o suficiente, resta ao jogador apenas fugir que nem louco. O jogo se divide por etapas, sendo que em cada uma temos de lidar com um perseguidor diferente, até chegar ao momento da trama em que se deve “eliminá-los” por assim dizer.



Os encontros com cada perseguidor acontecem de forma aleatória, sendo impossível prever quando teremos de dar no pé. Há duas maneiras de despistar um inimigo. A primeira é ordenando que Hewie os morda, o que sempre atrasa o maldito. Fiona coleta itens que podem ser jogados num inimigo, apenas para paralisá-lo, e ainda é possível dar um empurrão para atrasá-los. No entanto, o objetivo mesmo é fugir e se esconder até a área ficar limpa. O que deixa esses momentos tão gostosos é a inteligência apurada dos inimigos, que costumam voltar entre três a quatros vezes em um mesmo local, vasculhando até encontrar a protagonista.


As perseguições ficam ainda mais eletrizantes, graças ao excelente sistema de pânico. Por estar indefesa, Fiona se assusta com qualquer coisa. Desse modo, quando a moça está tensa, a tela começa a dar pequenas engatadas e as cores vão se tornando mais opacas, como se simulasse uma sensação de dificuldade em distinguir as coisas pelo caminho. Na medida em que o pânico aumenta as travadas de tela ficam mais frequentes e o jogo ganha um horrível e assustador tom de cinza. Esse medo também influência nos controles, já que o jogador tem maior dificuldade de controlar Fiona ou de dar ordens a Hewie. A moça também tropeça, esbarra na parede e cai quando chega aos extremos do medo. É simplesmente angustiante ouvir Fiona se arrastar e gritar de medo enquanto os Dual Shock vibra  loucamente em nossa mão.

Parte técnica.

Haunting Ground é o tipo de game que pode figurar em qualquer top 10 de gráficos do Playstation 2. Vamos começar pelos personagens. Os detalhes de expressão facial estão perfeitos, desde as olheiras de cansaço de Fiona a sua expressão de medo e pânico nas cenas não interativas. Suas roupas são tão bem feitas que deixam a impressão de serem de pano mesmo, graças ao excelente trabalho de textura dos modelos.



Os inimigos compartilham do mesmo bom gosto. Debilitas lembra muito o cômico gigante dos Goonies. Mas não se engane! sua cara de bobo não demonstra a fera assassina que ele é. Ricardo também possui uma modelagem excelente e um visual muito bom. Mas o inimigo que se destaca é Daniella, que passa uma imponência gigante em seus movimentos. Não podemos esquecer, é claro, de Hewie, que está bem trabalhado e detalhado. Seus movimentos são graciosos e cheios de estilo, desde seu jeito de andar ao seu rabo abanando. As animações também merecem destaque. As roupas sofrem ação do movimento dos personagens. O cabelo se move de maneira natural e sublime e o jogador fica fascinado com o trabalho técnico presente em cada movimento.

A cenografia é artística e bonita. A Capcom parece ter adquirido um talento natural para ambientar castelos e mansões, vide Resident Evil e Devil May Cry. Com Haunting Ground não foi diferente, e somos agraciados com um castelo medieval magnífico, cheio de detalhes. O ambiente é bem luxuoso, com uma grande sala de jantar, quartos cuidadosamente decorados, cortinas, pisos de pedra e escadas majestosas. O jogo de iluminação de cada sala é perfeito, umas com uma luminosidade avermelhada, outras mais escuras e etc. Os ambientes externos são um pouco mais simples, mas de modo algum chegam a ser feios ou mal acabados.



A parte sonora completa o excelente trabalho visual do jogo. Em pelo menos 70% o game segue de maneira silenciosa, de modo que contribui para a imersão do jogador no castelo. A trilha sonora é incidental, surgindo principalmente nos momentos de perseguição. São canções frenéticas e tensas, que contribuem para amedrontar a quem joga. Os efeitos sonoros estão excelentes, com equalizações bem coerentes e sem grandes exageros. A dublagem é perfeita, com vozes bem interpretadas, principalmente nos diálogos. Há gargalhadas histéricas e gritos de horror e agonia, que pontuam os momentos mais fortes do game.
  
Aprovado J

Divertido, interessante e assustador.

Em sua época de lançamento, Haunting Ground foi o jogo de horror que a muito o publico esperava. Sua jogabilidade é bastante simples e livre de entraves. O jogador pode controlar Fiona e dar ordens a Hewie sem dificuldade alguma. Os iniciados no gênero não terão dificuldade alguma para assimilar o andamento de Haunting Ground, que consiste na busca por itens para acessar novas áreas. As perseguições podem acontecer a qualquer momento. Isso adiciona um desafio considerável ao jogo, já que é muito comum se dividir entre resolver quebra-cabeças e se manter distante de seus oponentes. As perseguições podem acontecer mesmo durante um puzzle.



Há uma quantidade respeitosa de puzzles espalhados pelo castelo, que vão desde criar plaquetas que funcionam como chaves a resolver sequencias de botões e alavancas. Em muitos desses quebra-cabeças a ajuda de Hewie é fundamental. Há enigmas que se resolver com a ordem correta de pressionar botões e Hewie é extremamente útil nessas horas. A forma como a protagonista e o cão se relaciona também é muito criativa. É simplesmente impossível não se importar com o animal durante o game, principalmente na etapa de Ricardo, onde o pobre Hewie é constantemente baleado pelo vilão.

O enredo é misterioso e bem desenvolvido, ainda que traga os clichês bem característicos de todo o horror/survival. Mas a parte mais impressionante fica no charme singular de assustar. Pode parecer exagero, mas em alguns momentos, Haunting Ground chega ao extremo do medo e do desconforto. As perseguições sempre causam tensão no jogador. Quanto mais longas, mais amedrontadoras ficam. 



As cenas de morte foram projetadas para serem um tanto impressionantes e mórbidas, e de um jeito ou de outro, conseguem o resultado. Quando um perseguidor consegue matar Fiona, a câmera se foca em um ponto do cenário diferente, enquanto ouvimos Fiona gemer de dor enquanto sons de carne rasgando e gargalhadas sinistras ecoam pelo corredor. Algo assim é tão desagradável que o jogador fará o possível para não morrer, pois é realmente forte. Há salas que guardam armadilhas bem sutis, mas que também causam mortes violentas à pobre moça. É tipo de coisa que nem é bom escrever na análise pra não estragar a surpresa. Apenas jogue para descobrir!

Reprovado L

Perseguição demais, esconderijo de menos!

Ainda que as perseguições sejam boas e divertidas, há algo bem ruim nesse sistema. Há pouquíssimos lugares para Fiona se esconder. Quanto mais tempo a moça correr, mais ela se cansa e aumenta o pânico. Como se já não bastasse ter poucos cômodos para salvar sua pele, os inimigos são realmente inteligentes. Com o tempo, eles passam a vasculhar os lugares com mais minúcias, e fatalmente, encontram o local onde Fiona está. Da próxima vez em que o jogador for para este mesmo lugar, este será o primeiro que o perseguidor vai olhar, pois eles memorizam os pontos onde Fiona foi encontrada antes. O jeito é abusar bem dos itens que tiver para despistá-los e fazer Hewie atacar bastante o perseguidor até que ele desista. Pena que isso acaba prolongando as perseguições mais do que desejável.

Criação de itens com alquimia.

Assim como em outros títulos da Capcom, em Haunting Ground a protagonista pode criar itens importantes utilizando a outros itens que coleta no castelo. No caso, Fiona coleciona diversos tipos de medalhas, que podem ser misturadas a partir da alquimia, bastando usar uma máquina especifica que ficará em alguns aposentos.


No entanto, o sistema é um tanto chatinho e irritante. Você coloca uma moeda dentro da máquina e várias bolinhas de cor cinza aparece. No centro há uma cor a qual todas as bolas devem ficar. O problema é que as demais bolas giram muito rápidas e é quase impossível deixar pelo menos três delas de cores idênticas. Resultado, você gasta uma medalha e não consegue criar item algum. Ainda assim, criar itens pode ser interessante, pois você consegue relíquias bastante úteis, como um par de pulseiras que tornam Fiona invisível quando parada por mais de cinco segundos.

Ângulos de câmeras.



Houve um tempo em que sofrer de problemas com câmeras era algo normal em jogos de horror/survival, e Haunting Ground não fugiu da regra. Na tentativa de criar tomadas mais dramáticas, a visão de jogo assume ângulos vistos por cima. Nada que os fãs de Resident Evil não conheçam. Mas assim como em seus irmãos mais velhos, Haunting Ground faz o jogador ficar constantemente desorientado com mudanças bruscas de visão. O problema piora nos chefes. É que nesses momentos Fiona precisa se movimentar constantemente para fugir do inimigo e se livrar dele. Na luta final contra Lorenzo a câmera atrapalha ao extremo e acaba dificultando mais do que o chefe em si!

Conclusão.

Com muita criatividade e dignidade, Haunting Ground conseguiu resgatar muito do bom e velho terror que algumas franquias mais antigas perderam. O game tem um tempo respeitável de duração, até 15 horas só no primeiro game play. Ver os demais finais do jogo é um incentivo e tanto para um replay, e a imprevisibilidade do jogo ajuda a manter o interesse. Ainda há extras, como jogar numa dificuldade mais elevada e uma sala de segredos, onde é possível escutar as canções do jogo, ver vídeos da cinemática e imagens conceituais de cenários e personagens. Ainda há um minigame, onde devemos controlar Hewie enquanto ele defende Fiona de seus perseguidores.



Apesar de sua genialidade, Haunting Ground teve uma recepção um tanto fria por parte da critica especializada, que contribuiu para uma visão negativa do game com o público. Sim, é verdade que não é um jogo perfeito. Mas Hauting Ground é o tipo de game onde as falhas são insuficientes para deixá-lo menos interessante. Os órfãos de jogos de terror realmente tem muitos motivos para conferir e se deliciar com os sustos criativos de Hauting Ground.



Notal Final.





Análise escrita por: Lipe Vasconcelos.












4 comentários:

  1. Olá Lipe Vasconcelos. Já joguei este jogo há um bom tempo atrás mas ultimamente me lembrei dele e tenho lido algumas coisas referente a história. O enredo de fato é misterioso e me intrigou bastante em alguns pontos(azoth, o famoso legado da "família" Belli assumido em cada geração visando a imortalidade, método a seco, etc) gostaria de saber mais sobre a história se é que de fato existe algo mais. Vc tem alguma sugestão de onde posso saber mais sobre a história(quanto mais detalhado possivel)??

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  2. Olá Lipe Vasconcelos. Já joguei este jogo há um bom tempo atrás mas ultimamente me lembrei dele e tenho lido algumas coisas referente a história. O enredo de fato é misterioso e me intrigou bastante em alguns pontos(azoth, o famoso legado da "família" Belli assumido em cada geração visando a imortalidade, método a seco, etc) gostaria de saber mais sobre a história se é que de fato existe algo mais. Vc tem alguma sugestão de onde posso saber mais sobre a história(quanto mais detalhado possivel)??

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  3. oi Lipe! eu tambem sou expert nesse jogo e com muito esforço consegui finalizar com os 4 finais digerentes.
    gostaria de fazer umas perguntas a vc se puder ou souber responder, são elas:
    pq colocaram o dna do espaço como maquina de criar itens? e pq utilizaram a mandrágora (lendária planta gritante) para alimentar o cadaver do mausoléu? desculpe, mas tem coisas no game que não consigo entender.

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    1. Opa, beleza, cara?
      Então, boas perguntas as suas, o enredo realmente deixou várias pontas soltas. O que sei é que esse jogo deveria ter continuação, mas as vendas foram abaixo do esperado e a Capcom largou a ideia. Acredito que essas questões seriam revistas em um futuro game da franquia, que seria muito bom por sinal!

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