segunda-feira, 25 de maio de 2015

Análise: Dante´s Inferno.




Abandonai toda a esperança vós que aqui entrais



De tempos em tempos surgem calorosas discussões sobre o valor artístico dos vídeo games. Para alguns, é só um brinquedo para jovens e crianças. Mas para outros, trata-se de uma expressão artística áudio visual tão importante quanto à música, o cinema e os livros. Essas artes andam lado a lado. Com freqüência vemos livros virando filmes e filmes virando games; com resultados duvidosos, diga-se de passagem. Mas sempre há inspirações mais profundas e valiosas. Nesse caso, que tal uma das mais importantes obras literárias do mundo? Essa é a inspiração de Dante´s Inferno, game do gênero ação/hack in slash lançado em 2010 pela EA Games e desenvolvido pela Visceral Games.

Dante´s Inferno explora a concepção medieval do inferno baseada na Divina Comédia, de Dante Alighiere. No livro o escritor narra através de cânticos a sua decida ao inferno e sua subida ao purgatório e paraíso, a fim de fazer um conhecimento e reflexão pessoal. Mas no título de Hack in Slash da Visceral Games, Dante é um cavaleiro templário que precisa salvar sua amada Beatrice, que perdeu sua alma para o Diabo após perder uma aposta. Para salvá-la, Dante terá de descer ao inferno, explorando os nove círculos do submundo e descobrindo os horrores de um lugar que você não gostaria de estar. Com uma temática impressionante e gráficos soberbos, Dante´s Inferno não esconde sua “inspiração” em God of War. Mas será que a qualidade da aventura de Dante chega aos pés das de Kratos? A análise a seguir foi feita com base na versão para X-Box 360, mas também pode ser levada em conta para o Playstation 3.

Aprovado J.

O inferno como nunca se viu.

Dante´s Inferno chama atenção por sua ambientação. De acordo com o poema, o inferno é dividido em nove círculos, cada um deles reservado a um crime diferente. Quanto mais fundo o circulo, mais grave será o castigo, e Dante deve descer até o mais profundo confim do inferno. Logo no inicio do game acompanhamos Dante em uma de suas batalhas pela igreja, momento perfeito para aprender o básico do sistema de combate. Logo em seguida, o cavaleiro enfrenta a Morte, a derrota e rouba sua foice (chupem, Belmonts) e daí em diante o game começa a ganhar o seu clima sombrio. O local é realmente medonho e repulsivo. É impressionante ver Dante caindo no inferno e ver almas condenadas caindo junto com ele, e isso é muito pouco perto do que Dante´s Inferno mostra durante as suas oito horas de campanha.



O jogo se vale da narrativa do livro para criar com perfeição cada circulo do inferno. Para todo lado se escuta gritos de sofrimento, lamentos e desespero. Há locais com cascatas de corpos humanos caindo, paredes com atormentados e cachoeiras de sangue. A cada circulo novo, os ambientes se tornam mais aterradores. No circulo da ganância, por exemplo, temos ouro liquido misturado com larvas e pessoas presas em paredes de ouro. No circulo da raiva há almas afogadas em lagos de excremento. Muitos jogos já fizeram suas versões do inferno, mas Dante´s Inferno vai além de locais genéricos e repletos de fogo. O ambiente é palpável e o esforço da produtora é considerável. Conforme avançamos no game nos vem um sentimento de que aquele é um um local que realmente não queremos estar. 

Por se tratar de uma viagem ao inferno, o game deixa claro que não é um título para crianças, nem para os mais sensíveis. O enredo é o ponto forte da produção. A trama usa com competência temas como sexo, violência, espiritualidade e religião, com toques excessivamente obscuros. Há várias cenas de nudez e insinuações sexuais. Escatologia também é freqüente e é preciso ter muito estomago para suportar algumas dessas passagens. Até mesmo os inimigos fazem jus ao inferno retratado no poema. 



No Limbo Dante enfrenta bebês com foices no lugar dos braços, representando crianças que morreram antes de serem batizadas. Há prostitutas com serpentes saindo de partes intimas, demônios gordos que vomitam e defecam no herói e muitas outras coisas grotescas. No geral, Dante´s Inferno não é um jogo de terror; não como Silent Hill ou Dead Space, mas cada elemento do jogo está a serviço do seu contexto, e gostando ou não, esse toque tão assustador é fundamental na imersão do game. Se você não aprecia cenas ou temas do gênero, passe longe de Dante´s Inferno.

Combates e sistema de melhoria.



Como todo bom Hack in Slash, Dante´s Inferno não economiza em combates rápidos e brutais. O cavaleiro utiliza uma foice como arma principal, podendo utilizar uma boa gama de combos e golpes para aniquilar hordas de inimigos. Como é de praxe, existe um botão para ataques mais fracos e outro para os mais fortes. Dante ainda pode utilizar um crucifixo para disparar ataques a distancia e combiná-los com golpes de foice. A resposta dos comandos é muito boa e enfrentar as diversas criaturas do inferno nunca fica cansativo. Para quebrar a rotina existem os famosos Quick Time Events, seja para inimigos comuns ou mesmo para os gigantescos chefes. Os QTE não serão nada diferente de God of War, você deve apertar o botão certo no momento certo para finalizar seus oponentes. As lutas contra chefes são simplesmente fantásticas, dignas da escória infernal que Dante deverá enfrentar.

Assim como em qualquer jogo do gênero, Dante pode coletar almas para melhoras suas armas, acrescentando novos combos ao seu leque de ataques. A grande maioria dos oponentes pode ser derrotada com ataques mais simples. Conforme o game avança, surgem criaturas mais poderosas e atacando em maior número. Nesses casos o apertar aleatório de botões não funciona. É preciso ter sequências mais poderosas e refinadas para sair dessas situações com vida. No decorrer da jornada, Dante conseguirá magias que serão de grande ajuda para derrotar seus oponentes. É possível usar uma cruz de gero para atingir vários inimigos, lançar lâminas e até usar um poder que mata inimigos comuns instantaneamente. Logicamente, tais magias farão uso de uma barra de maná, que pode ser recuperada em vários altares espalhados pelo inferno. Dante ainda conta com um poder de fúria, que deixa seus ataques mais devastadores por alguns segundos



O sistema de melhorias traz dois tipos distintos de arvores de upgrade. A primeira é a arvora de unholy, que aumenta o poder da foice e libera novos combos para está arma. Já a holy é direcionada para o crucifixo. Todas as melhorias do jogo são feitas nesta tela, até mesmo a expansão da barra de vida e poder mágico. Dante também irá coletar diversas relíquias que lhe darão mais vantagens. Com elas é possível aumentar ainda mais o poder dos combos, aprimorar a barra de fúria e etc. Mas o uso dessas relíquias depende exclusivamente do nível de holy ou unholy do herói, e aqui entra um dos sistemas mais divertidos do game.

Enquanto estiver descendo os círculos do Inferno, Dante irá encontrar figuras famosas da história. Há Pôncio Pilatos, rei Frederico II e etc. Usando a foice da morte, o cavaleiro terá a opção de punir ou perdoar esses pecadores. Se escolher a punição, Dante os finalizará com um golpe brutal e sangrento, ganhando almas extras e aumentando o nível da unhloy. Caso escolha absorver os pecados, se inicia um minigame para perdoar o maior número de pecados possíveis. Quanto mais pecados, maior será o nível de holy, e consequentemente, o número de almas coletadas. Inimigos mais fracos encontrados durante os círculos também podem ser absorvidos ou punidos.



Esse sistema não serve exatamente para direcionar almas de punição para a arvore de unholy ou de absorção para a holy. O lada para o qual você investe suas almas não depende disso. Mas as relíquias só serão equipadas em determinados níveis de uma arvore de evolução. Por exemplo, há uma relíquia que permite Dante destruir altares de HP e maná mais rapidamente, mas ela só poderá ser usada caso a arvore de holy estiver no nível 3. Você pode seguir o game inteiro apenas alimentando a barra de holy, ou somente a de unholy. Se preferir (e eu recomendo) você pode equilibrar essa evolução, pois as duas barras desbloqueiam relíquias vantajosas.  

Reprovado L.

Criatividade desequilibrada.



Até o ano de 2005, todos os games de Hack in Slash seguiam um padrão de jogabilidade “inventada” por Devil May Cry. Isso mudou com o lançamento de God of War, que trouxe uma saborosa combinação de combates desenfreados com puzzles e exploração. Com isso, parece que o sucesso da Sony se tornou a cartilha para o gênero, e quase todos os jogos posteriores de Hack in Slash passaram a trazer referências às mecânicas de Kratos e Cia. Um game que não fugiu muito dessa regra foi Darksiders, que nesse caso, também, houve inspiração em jogos como Zelda e até mesmo Devil May Cry, criando uma combinação sutil que até soa como original.

Mas com Dante´s Inferno o negócio foi muito diferente. A Visceral não fez leves “homenagens”, ela simplesmente copiou várias das ideias presentes em God of War, sem cerimônia alguma. Em alguns momentos há leves citações, em outros, você fica simplesmente espantado em ver que a equipe da Visceral Games não teve nem a decência de esconder sua “inspiração” no Deus da Guerra. Isso fica claro no circulo da traição, com aquela estatua soprando em uma ilha para derrubar Dante, idêntico ao titã do gelo em God of War 2. O inicio do combate contra Lucifer nos leva a pensar em Kratos enfrentando Zeus, também em GOW2. E não para por aqui. Vários elementos na jogabilidade são idênticos a God of War; O modo como Dante quebra os altares para recuperar sangue e poder mágico, o modo como escala ou desce em paredes, suas finalizações em inimigos, o modo como empurra caixas e até suas cores... Muita coisa aqui o faz lembrar de God of War a todo momento. Mas é preciso ser justo! Mesmo com tantas “referências” ao Deus da Guerra, Dante´s Inferno também copiou a qualidade do game da Sony. Tudo funciona de forma satisfatória e divertida. É apenas incomodo ver que um jogo tão bem produzido não se preocupou em ter ideias mais originais.



Dante´s Inferno tenta ser um jogo de ação/aventura equilibrado, mas nesse quesito o resultado é menos satisfatório. Desmembrar hordas de demônios ocupa 80% da jogatina. Há sim quebra cabeças, e eles não chegam a ser chatos; apenas são... Digamos assim, bobos demais! Tudo se resume em girar alguma manivela para abrir um portão ou empurrar alguma caixa de um ponto ao outro. Houve um momento no circulo da heresia em que me deparei com algo que parecia realmente complexo. Mas logo vi que bastava girar uma manivela para virar uma caldeira de fogo e empurrar uma caixa para baixo dessa caldeira. O mais triste é que o jogo tinha grande potencial para fazer coisas mais desafiadoras e bem elaboradas. As puzzles cumprem seu papel, que é variar um pouco a rotina de enfrentar demônios, mas essa é a única parte realmente fora de contexto em Dante´s Inferno. 

Por fim, Dante´s Inferno deixa a sensação de quero mais. Os círculos são muito bem criados e os projetos das fases são excelentes. Mas a sensação de pressa é muito evidente. O circulo da luxuria e da gula, por exemplo, são concluídos rapidamente e sem grande dificuldade. O circulo final (traição) parece existir apenas para o combate final. O que motiva o jogador a explorar mais os cenários é caçar novas relíquias, encontrar almas torturadas para julgar e procurar por itens que liberam novas conquistas (quem estiver jogando no X-Box360) ou troféus (no Playstation 3). No mais, Dante´s Inferno dura apenas oito horas, o que é muito pouco para as atuais gerações de games. Quem já leu A Divina Comédia – Inferno, sabe que havia espaço para se aprofundar muito mais.



Parte técnica.

Nesse quesito Dante´s Inferno é impecável. O trabalho artístico é de muito bom gosto e permitiu construir com eficiência o ambiente tenebroso descrito no livro. As texturas são muito boas e ricas em detalhes. Há vida em cada ponto mínimo do ambiente, e por mais repulsivo que sejam os locais visitados, é impossível não achar este jogo extremamente belo. Cada círculo possui suas decorações próprias, que vão desde rios de sangue e excremento a montanhas com fogo para todos os lados. A floresta dos suicidas é uma das fases mais impressionantes, com corpos pendurados em arvores pelo pescoço. A iluminação de cada local é única e cheia de vida.


O design dos personagens é outro ponto a favor. Cada boneco ficou muito bem trabalhado e com animações bem fluidas. Há uma boa variedade de inimigos, com diferentes detalhes e tamanhos. O próprio Dante está muito bem feito e animado. O game fica ainda mais belo nas cenas de pancadaria. Há efeitos de golpes, sangue, raios e magias para todo lado, e não há uma única queda na taxa. É realmente impressionante a suavidade com que Dante´s Inferno roda. Só existe tela de loading quando você carrega o seu jogo salvo. Mas no decorrer da aventura o jogador não precisa se importar com carregamento de dados a toda hora.

Ainda há cenas não interativas que surgem para contar mais detalhes da história de Dante. Algumas cenas são feitas com técnica de CG, que são lindas e bem produzidas. Mas a grande parte dessas cenas foi feitas com técnicas de Cell Shading, a fim de estilizar essas passagens com um toque mais medieval. O resultado é realmente impressionante.  



Dante´s Inferno foi um jogo graficamente impressionante, principalmente para o X-Box 360, mas não pelo console da Microsoft ser considerado por alguns inferior ao da Sony. Acontece que Dante´s Inferno foi lançado na mesma época que God of War 3, e no Playstation 3 não havia nenhum jogo que pudesse competir com Kratos em termos gráficos. Mesmo assim, Dante´s Inferno é um game que envelheceu muito bem.

No quesito sonoro tudo vai muito bem. O inferno é um local de dor e sofrimento, por isso Dante irá escutar gritos de dor e choros de desespero e agonia em todos os locais, bem como sussurros e lamentos. Os monstros e demônios possuem sons grotescos e guturais, enquanto as prostitutas usam vozes sedutoras. Impressionante mesmo é ouvir o choro de bebês quando enfrentamos os bebês do Limbo. A sonoplastia é soberba e completa o impacto visual. As dublagens estão igualmente boas, principalmente a de Dante. A trilha sonora é composta por canções de violino e batidas dramáticas, com  tom opressivo e desesperador, que ajuda a completar a sensação de destruição dos combates.  

Conclusão.

Dante´s Inferno é um título de extrema competência técnica, com excelentes combates e uma gama de golpes espetaculares para usar. O seu ponto alto é mesmo a ambientação, que constrói a representação mais impressionante e assustadora do inferno. A trama do jogo não é exatamente a mesma do poema de Dante Alighiere, pois modificações tiveram de ser feitas pelo bem do game. Mas o resultado final é espetacular e o enredo prende o jogador do inicio ao fim.



Já o jogo, propriamente dito, poderia ter sido melhor. É verdade que Dante´s Inferno é muito parecido com God of War. A boa noticia é que a Visceral manteve nível de qualidade da franquia da Sony, entregando um game divertido e repleto de combates frenéticos e sangrentos. Só faltou equilibrar mais as doses de lutas, exploração e puzzles. As puzzles poderiam ter sido mais criativas e desafiadoras. Esses pequenos deslizes acabam por tirar um pouco do brilho Dante´s Inferno, mas não o suficiente para ser um jogo de má qualidade.

Uma sequência de Dante´s Inferno é esperada até hoje. O game foi pensado para ser uma trilogia. Infelizmente, alguns fatores foram contra o jogo. Para começar, ser tão parecido com God of War espantou muitos jogadores, em especial os mais fanáticos por Kratos. O jogo foi tão duramente criticado que uma boa parte do publico virou a cara para ele. Dante´s Inferno só tornou-se mais querido alguns anos após seu lançamento. 



A temática obscura também gerou muitas controvérsias. A Visceral explorou com muita competência o contexto espiritual do livro, utilizando temas bem polêmicos e considerados tabus. Mas isso era necessário para recriar a essência da obra. Mesmo assim, isso foi suficiente para os moralistas e cristãos conservadores acusarem o jogo de apologia ao satanismo. No mais, Dante´s Inferno é um dos títulos mais impressionantes e divertidos de sua geração. O trabalho de arte é impecável e sua jogabilidade perfeita. Não se engane com as criticas duras que Dante´s Inferno possui. Os seus problemas existem, mas está muito distante de ser um título dispensável ou descartável. 


Notal Final:


Análise escrita por: Lipe Vasconcelos.







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