domingo, 10 de abril de 2016

Análise: South Park - The Stick of Truth.



Oh Meu Deus, mataram o Kenny...



O estilo debochado e sujo de South Park pegou o público de surpresa no final da década de 90. Hoje o desenho coleciona uma quantidade de fãs quase tão grande quanto o número de polêmicas em que se envolveu. A primeira investida da série nos games, em 1999, não é lembrada com carinho pelos fãs, e com a falência da THQ, parecia que South Park – The Stick of Truth nunca veria a luz do dia.

Depois de muita incerteza com relação ao seu lançamento, The Stick of Truth cumpri a promessa outrora feita pela THQ. Mais do que traduzir a pegada non sense e politicamente incorreta da série, The Stick of Truth é simplesmente genial. O título da Obisidian ganha não só o coração fiel do publico da série, como também os fãs de um bom e velho RPG tradicional, e talvez até um nicho de pessoas que nunca simpatizaram com o gênero.

RPG épico.

The Stick of Truth é um autentico título de RPG, mas que nunca nos deixa esquecer que estamos jogando um game do South Park. O jogador controla um recém chegado à vizinha (carinhosamente apelidado de Babaca) que deseja fazer amigos. As crianças de toda South Park estão brincando de RPG, onde elas se dividem entre humanos e elfos, ambos desejando o poder de um artefato lendário conhecido como Cajado da Verdade. A narrativa deixa clara que a história tem escalas épicas, mas dentro da visão de crianças com imaginação fértil. Logicamente, o jogo deixa de ser uma brincadeira inocente e toma proporções catastróficas e sombrias.



Em vez de colocar o jogador no comando de um dos personagens da série, The Stick of Truth obedece os padrões de um típico RPG. Você cria um personagem novo e seleciona uma das quatro classes disponíveis; guerreiro, feiticeiro, ladrão e judeu. Após isso, o jogador poderá interagir com Cartman, Buttlers, Kyle, Kenny e todos os demais personagens da série.

A interação com a cidade é o principal charme do game. Após passar por um breve tutorial para assimilar o sistema de combate, o jogador fica livre para explorar toda a South Park. O mapa não é tão extenso quanto o de um game como Skyrim ou The Witcher, e o número de missões também não é tão grande, mas são variadas e muito criativas.



Por ser novo em South Park é necessário fazer amigos novos. Cada nova amizade feita pelo protagonista fica registrada no seu Facebook. Quanto mais amizades feitas, mais melhorias extras são habilitadas para uso do personagem. Além disso, é engraçado ler as postagens que seus amigos fazem na rede social. Algumas serão dicas para alguma missão em andamento, mas a maioria das mensagens são zoeiras e trocas de indiretas entre os habitantes de South Park.

O sistema de combate herda ideias tiradas diretamente do clássico Paper Mario. As lutas acontecem por turnos, quase sempre contando com a ajuda de um parceiro. Mas em vez de apenas escolher ações e assisti-las acontecer, o jogador estará em constante interação, muito similar a um QTE, para potencializar um ataque é necessário apertar botões específicos ou girar o analógico. A interface é muito simples e torna todos os comandos auto-explicativos. Há particularidades que vale a pena citar. O jogador tem direito a usar um item qualquer e atacar numa mesma rodada, desde que isso seja feita numa ordem padrão (usar item primeiro e atacar depois).



Apesar de simples, os combates em The Stick of Truth pedem estratégia da parte do jogador. Agir sempre com força bruta nem sempre garante vitória. Os oponentes costumam usar diversos truques que devem ser quebrados com ação específica, como o contra-ataque, que bloqueia qualquer investida corpo a corpo, ou escudos devem ser destruídos com combos. Mesmo sendo simples e direto, é possível sofrer derrotas por erros de estratégia simplórios. A mecânica é um tanto profunda, mas bastante amigável. Jogadores já experientes do gênero poderão aproveitar possibilidades interessantes de ataque e defesa, enquanto os novatos podem vencer com muito pouco. Esse não é o tipo de RPG que exige muitas horas de treino para alcançar níveis muito altos para progredir na campanha, mesmo por que não é possível passar do nível 15.

Assim como em todo bom RPG, há equipamentos para coletar; espadas de madeira e plástico, roupas que são adaptadas como armaduras, elmos e luvas. Cada arma possui slots que podem ser equipados com remendos de fantasias. Esses remendos modificam as armas, acrescentando pontos de ataque, defesa e modificando status que afeta as condições de saúde de seus oponentes. Uma espada pode deixar um oponente em chamas, congelá-lo ou até provocar nojo que o faz vomitar até a morte.   



Por fim, ainda há as habilidades que consomem os PP´s (Pontos de poder) do seu personagem. É possível realizar espancamentos utilizando tacos de beisebol, cabeçadas no estomago, eletrocutar usando balde com água e torradeira e até atordoar oponentes com chutes no saco. A magia utilizada no game é nada menos que seus peidos, que são separados em quatro categorias de poder e efeito. Uma dessas magias flatulentas é “heroicamente” chamada de Urro do Dragão.

As habilidades não são utilizadas apenas em combates, mas também na exploração do mapa. Há uma sonda anal alienígena que funciona como teletransporte, um pó mágico que faz o protagonista diminuir e aumentar de tamanho e etc. Os peidos tem muitas utilidades, como distrair inimigos em momentos de stealth e detonar paredes rachadas. Cada um dos parceiros possuem habilidades próprias, como Buttles, que pode utilizar o toque da cura para recuperar todo o HP de um aliado, ou o Stan que usa seu cachorro na resolução de puzzles, ou mesmo para atacar inimigos em combates.

Um desenho em forma de game.

Mesmo com todas essas pampas de RPG épico, a trama toda não passa de uma divertida brincadeira entre as crianças de South Park. A impressão que fica é que estamos jogando um episódio da série. Aos olhos das crianças, a cidade toda é um reino medieval, com castelos, estalagens, florestas e monstros para derrotar. O game vende tão bem essa ideia que nenhum dos absurdos propostos pela trama soam fora de sintonia para o jogador.



Mas para a frente a trama ganha rumos mais sombrios, e logo a brincadeira se torna uma batalha para salvar a cidade de um perigo real e letal. A Obisidian não faz cerimônia ao colocar o jogador diante de situações pouco convencionais e repletas de referências questionáveis. A história encaixa piadas envolvendo racismo com ruivos, zumbis alemãs nazistas, uma visita ao Canadá, clinicas de aborto, pedofilia, alienígenas com sondas anais, cenas de sexo sem censura, linguagem imprópria e até preconceito com judeus. Fãs assíduos da animação irão reconhecer um certo astro do cinema trancado no armário de Stan.

O game explora com muita competência cada aspecto do show. O humor é tão sujo e escrachado quanto é possível ser, e vai ser realmente difícil segurar as risadas enquanto joga. No entanto, para os não iniciados, o politicamente incorreto do game pode ser bastante incomodo e por vezes até ofensivo. Ao jogar South Park é preciso ter em mente que o humor da série explora o que há de mais incorreto e sujo possível. Desde que você esteja preparado para adentrar no mundo bizarro de South Park, há muito para lhe fazer rir até o fim. Mas se piadas politicamente incorretas lhe soam ofensivas, melhor não jogar The Stick of Truth.

Fora as missões principais, The Stick of Truth possui uma série de missões secundarias. Todas são tão criativas quanto as missões principais. Mesmo nelas há coisas bem polêmicas, como fazer uma limpeza na cidade expulsando todos os mendigos a força, liquidar traficantes de drogas, enfrentar um embate contra um famoso ex-candidato a presidência dos Estados Unidos e encontrar Jesus. Apesar de ter um conteúdo abrangente, The Stick of Truth tem uma duração média de 15 a 18 horas. É um tempo um tanto curto para um game de RPG, mas por ser um game de South Park, podemos dizer que a campanha tem um tempo ideal, sem que o jogo acabe forçando a barra e fique cansativo.

Parte técnica.

Se comparado a outros jogos de sua geração, The Stick of Truth possui gráficos bem simples e fracos, pois não conta com texturas ou modelos realistas. Em lugar disso, o Cell Shading é utilizado para recriar todo o trabalho artístico do desenho. A impressão que fica é de estarmos realmente controlando o desenho animado. A fidelidade fica visível desde os cenários e casas ao jeito de andar de cada personagem. Os efeitos de tela são muito básicos, uns trovões aqui e ali, efeitos de fogo e explosões, mas com proporções bem colocadas, com o intuito de não se distanciar da proposta do título.



A parte sonora merece igual destaque. A trilha sonora parece que foi retirada de trabalhos como Skyrim ou Senhor dos Anéis. Poucos jogos da atual geração conseguem criar temas de qualidade e grudentos, e certamente, os de Stick of Truth conseguem ser as duas coisas. Enquanto explora o mapa o jogador será contemplado com canções épicas, dignas de uma aventura com bruxas, elfos, orcs e cavaleiros. Os efeitos de som são bem ricos, e muitos deles fazem menção a outros títulos de RPG. A dublagem é toda feita pelo elenco original da série, o que aumenta ainda mais a imersão do jogador. Para os brasileiros, há uma excelente tradução dos diálogos, e muito bem traduzidos, com todas as piadas bem interpretadas e a linguagem xula já conhecida dos fãs. 

Conclusão.

Depois de muito tempo os fãs de South Park ganharam um game digno da série. Mais do que recriar a série no vídeo game, The Stick of Truth mostra que é possível criar um RPG de qualidade, que agrade tanto os jogadores casuais quanto os mais experientes no gênero. O trunfo do game está em juntar o espírito da série com mecânicas solidas, bem boladas e enredo descompromissado, que consegue encaixar uma série de elementos ilógicos em uma trama que soa tão natural quanto se poderia esperar. Somente um jogo do South Park consegue unir uma brincadeira de RPG´s, alienígenas e zumbis de maneira tão concisa e divertida.



South Park – The Stick of Truth mostra que é sim possível fazer um bom jogo baseado em um programa tão emblemático quanto South Park. As ideias não são revolucionárias, mas funcionam muito bem e conseguem prender o jogador. Também fica claro que este não é um game para crianças. Explorar com maestria o universo do desenho resultou num título maduro, com muito humor negro e não recomendado para menos de 16 anos. 

O game também é recomendado para aquela galera que nunca assistiu a série, mas é para os fãs mais antigos que as melhores surpresas do jogo se reservam. South Park – The Stick of Truth é uma bela pedida, um game livre de falhas, que vai divertir o jogador até o fim de sua campanha, e quem sabe, inspirá-lo a passar por tudo de novo, só para ter o prazer de zoar em South Park de novo e de novo.

Nota final:



Análise escrita por: Lipe Vasconcelos.







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