sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Joguei e não recomendo: Assassin´s Creed III



Nada é verdade, tudo é permitido... Mas aceitar o Connor na ordem ai já é sacanagem, hein!!!





Levou certo tempo para que eu adquirisse o carinho que hoje tenho por Assassin´s Creed. Joguei o primeiro game da franquia ainda em seu inicio, e embora o tivesse achado interessante, não foi o suficiente para esperar muito de sua sequência. De fato, levou alguns anos até que eu viesse jogar Assassin´s Creed II, e por fim, me render ao que a franquia da Ubisoft tinha de melhor. Foi o ritmo épico e único da chamada “trilogia Ézio” que me fez criar um hyper por Assassin´s Creed III. Mas vocês sabem, eu sou muito azarado com hypers. Aprendi a não alimentar expectativas por jogo algum, e nas raras vezes que isso aconteceu (Doom 3, Arkham Origins e Silent Hill – Shatered Memories) eu tive um belo balde de água fria. E hoje no “joguei e não recomendo” eu explico por que Assassin´s Creed III entra nessa lista.

Lançado em 2012, Assassin´s Creed III apresenta o desfecho do combate de Desmond contra a Abstergo. A Ubisoft havia prometido um salto revolucionário para a saga, expandindo o que já havíamos visto nos jogos passados. De fato, a proposta está lá. As promessas todas foram virtualmente cumpridas. Eu digo virtualmente, pois Assassin´s Creed III não sai da casa das boas idéias, pois 70% delas foram muito mal executadas.

Para deixar o texto menos cansativo, prefiro começar pelos pontos positivos do game. Assassin´s Creed III traz uma engine gráfica inédita para série, e consequentemente, um salto técnico altíssimo em comparação ao seu antecessor (Revelations). Tudo aqui é mais verossímil, desde a casa mais simplória até a onda mais selvagem do mar. Cada personagem foi carinhosamente bem cuidado, com expressões faciais convincentes e modelos impressionantes. Se os ambientes por si só já são belos, melhor ainda são as variações climáticas, onde vemos em detalhes verão, inverno, outono e primavera. Claro que o game sofre com bugs, principalmente quando chegamos em Nova Iorque, onde há mais pessoas transitando nas ruas. Mas ao contrário do que muitos jogadores relataram, não sofri tanto com bugs, pelo menos não como achei que aconteceria. Não tive que reiniciar meu console nenhuma vez por conta de uma falha que me impedisse de jogar.

Mas sabemos que a estética não é tudo, e nem os gráficos belos salvaram Assassin´s Creed III da tristeza iminente. O game continua do ponto em que Revelations parou. Junto com seus amigos, Desmond continua buscando desvendar os segredos da maçã do Éden. A busca o leva para um antigo templo que ele viu nas memórias de Altair e Ézio. Como de costume, para poder montar a ultima parte do quebra-cabeça, Desmond deve usar a Animus mais uma vez para procurar informações e respostas no DNA de outro ancestral seu, indo parar dessa vez em 1754. Após uma introdução bem interessante com um personagem chamado Haytham (crucial do desenrolar da trama), o jogador é apresentado a um novo protagonista. Um jovem índio nativo da America chamado Connor. O rapaz vê sua vida mudar depois que sua vila é destruída, resultado da guerra que os americanos travam contra os ingleses para conquistar sua independência. Buscando vingar a morte de seu povo e sua mãe, Connor acaba se envolvendo com a ordem dos assassinos e sua guerra contra os templários, e consequentemente, vestindo o capuz do assassino.

Connor: Talvez esse seja, ao meu ver, o maior problema do game. Nos quatro primeiros AC tínhamos o controle de Altair e Ézio, homens que faziam jus à ordem dos assassinos e nunca pensavam duas vezes antes de executar um templário. De dois homens destemidos e bem inseridos em suas batalhas, temos Connor, que é um total contraste de seus antecessores. Para fazer uma comparação vamos lembrar de Raiden, protagonista de Metal Gear Solid 2. Raiden é um garoto inexperiente, que se vê numa trama de mentiras e revelações que moldam seu caráter, até que ele se torne aquele personagem que, inevitavelmente, acaba conquistando o jogador. Connor é igual, com a diferença de que ele não consegue cativar público algum. Connor é irritante, contido e ingênuo, chegando até a se deixar ser preso em certo momento da trama. Ele pensa demais antes de agir, e o que é pior, é um assassino que evita matar! Sim, isso mesmo! Com freqüência Connor questiona o por que de matar seus alvos, e mesmo quando o faz, ele nunca sabe ao certo por que matou. Essa falta de personalidade faz de Connor um personagem insosso. E mesmo no fim do game, quando ele finalmente assume a postura digna de um Auditore, você já desistiu de tentar criar qualquer simpatia pelo assassino e sua causa (ao a falta dela).

Se o protagonista do game não conquista, a trama se esforça menos ainda para isso. Tudo é muito confuso. Como dito acima, o plano de fundo do game é a guerra da Independência Americana, acontecendo entre os anos de 1754 a 1783. Neste cenário, os templários adquiriram grande poder, de modo que os assassinos foram reduzidos a uma irmandade fraca, da qual muitos duvidam de sua existência. Os Templários ainda querem extinguir o que restou da ordem, ao que parece, apoiando a campanha de submissão dos ingleses em prol de um bem maior. Os assassinos por sua vez, desejam ver o povo americano livre. Mas nem sempre fica bem definido quem apóia quem. Enquanto os lados não se decidem, Connor acaba participando de alguns eventos históricos da época. E aqui entra o segundo erro do game.

A Ubisoft insiste em enfiar Connor em cada acontecimento importante da guerra da independência. Desde a Festa do Chá de Boston até o dia fatídico da assinatura da independência dos Estados Unidos, dessa forma fica parecendo que a Ubisoft quer “modificar “ a história, nos fazendo acreditar que a guerra entre templários e assassinos (a parte fictícia do enredo) se entrelaça com os acontecimentos históricos retratados no título. Um exemplo: Em Assassins Creed Brotherhood, o Papa Bórgia era o principal inimigo de Ézio, mas conforme nos diz a história, Rodrigo Bórgia matou o próprio pai, e assim o jogo mantém a história. Se fosse em Assassins Creed III, provavelmente Connor teria matado o Papa. Entendem o ponto? A ideia de que uma teoria da conspiração influenciou eventos históricos tira um pouco do brilho do jogo, principalmente quando lembramos das tramas mais bem escritas dos games passados.

Surpreendentemente, o ponto alto da trama é o tempo presente, aquele vivido por Desmond. Por sinal, há mais momentos em que controlamos Desmond. Eles não são memoráveis, é verdade, mas passa longe da chatisse que costumava ser. O desenrolar da trama é previsível, mas nem por isso chega a ser ruim. Pelo menos ela mantém o interesse do jogador, até mais do que as crises de consciência vividas por Connor no período colonial.

Em questão de mecânica o game traz o velho sistema de missões que sempre deu muito certo. Objetivos que envolvem matar alvos específicos, missões de perseguição, coleta de itens e quebra-cabeças, embora este ultimo elemento esteja menos presente em ACIII. Há mudanças interessantes e bem vindas, mas exploradas de maneira rasa. Por se passar no período da colonização, Assassin´s Creed III abandona as cidades majestosas dos games passados, dando lugar a locais como Boston e Nova Iorque em plena expansão. As colônias são mais parecidas com cidades, o que faz a exploração da área ser um pouco diferente. Você vai passar mais tempo no chão do que nos telhados, por exemplo. Mas a novidade maior fica na possibilidade de poder explorar florestas, campos, subir em arvores montanhas e até em caçar, Sim, como Connor é um índio, ele tem um contato muito singular com a natureza, e isso cria novas possibilidades. Uma atividade bem comum é caçar animais para criar novos equipamentos, ou criar uma vila no campo que permite a Connor juntar lucros para... É... Aqui vamos para o terceiro problema do jogo.

A possibilidade de criar itens é desbloqueada somente no penúltimo capitulo do jogo. E mesmo assim, o game não se preocupa em explorar a possibilidade de melhorar sua vila ou mesmo de criar novos equipamentos, simplesmente por que não há recompensas que seduzam o jogador para isso. É possível terminar Assassin´s Creed III sem usar nada disso, ou seja, são idéias que não influenciam em nada no progresso da história ou do personagem. O game também traz batalhas navais a bordo de navios de guera. Embora não haja muitos desses momentos, eles são realmente divertidos. Também há como melhorar nosso navio, comprando novas armas, aumentando sua defesa e tudo mais. Só que, infelizmente, também é possível terminar o jogo sem que isso lhe faça a menor falta.

Por fim, o sistema de combate tão criticado dos jogos anteriores foi refeito, e ficou muito bom. Basicamente ele funciona similar ao sistema da franquia Arkhan. Usa-se um botão de bloqueio no momento em que o sinal aparece na cabeça do oponente. Com a defesa efetuada, você pode tentar desarmar o oponente, pegá-lo pelo pescoço e usar como escudo ou simplesmente atacar de volta. O sistema é muito bom, mas pode ser um pouco complicado, uma vez que ele é muito mais ágil e complexo do que a trilogia Ézio nos acostumou. Pegando o jeito, é possível realizar ataques brutais. Sim, mesmo com toda a sua “frescura” Connor é o assassino mais brutal da franquia. Você também tem a sua disposição um gancho que permite matar oponentes a distância, além das pistolas de fogo, sempre muito úteis. Infelizmente, a câmera sempre assume posições incomodas. Sempre tem alguma arvore ou parede bloqueando a visão do jogador, resultando em mortes irritantes.

Assassin´s Creed III é um game que tinha tudo para ser genial e divertido. Infelizmente, a pressa em entregar um produto anual resultou num título de ótimas possibilidades não exploradas. O jogo tem missões desinteressantes, enredo arrastado e confuso e um protagonista digno de nossa irritação e desprezo. A dublagem nacional peca em algumas escolhas erradas de vozes e interpretações muito artificiais. Mas não serei tão chato! É realmente legal ver a Ubisoft dar atenção ao público brasileiro. A trilha sonora tem o seu brilho habitual, com canções marcantes e bem compostas, bem como efeitos sonoros riquíssimos e bem mixados. No mais, Assassin´s Creed III é um jogo decepcionante, com um leque de possibilidades que foi jogado ao vento. Para mim, o pior de toda franquia e difícil de recomendar.
























Análise escrita por: Lipe Vasconcelos.






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